
Quando meu filho precisa de um pai
Carlos Sider
Ontem fiquei sabendo da
morte do filho de um conhecido meu, moleque de pouco mais de 18 anos, morto em acidente
de trânsito. Confesso que a sensação foi algo como:
"ufa, essa passou perto!" Se você também é pai
concorda comigo. Morte de filho, nem pensar! Antes eu do que ele. Câncer,
acidentes, drogas, qualquer outra desgraça moderna? Sai fora!
Hoje peguei um trecho de estrada e me apliquei a
pensar nisso. E cheguei a
triste conclusão que tenho sido um pai mais preparado para os momentos em que meu filho não
precisa de mim. Para os momentos em que ele mais precisa, parece que pulo fora.
Não há pai que se negue a chorar a
morte de um filho, e deve doer muito. Se ele foi um pai "daqueles", fica
a dor. Mas se ele foi um pai "da-que-les", além da dor ficam os
ressentimentos. E nessa hora é tarde. Não há pai que queira seu
filho metido em drogas ou álcool. Mas por que tantos pais só se mexem depois
que a desgraça acontece? Não há pai que não
queira que sua filha case feliz, com o cara certo, e que lhe dê netos na hora certa,
sem crises. Mas por que tanta gente não sabe se chora pela filha ou
festeja pelo neto que entra em cena antes das alianças? Não há pai que sequer admita
dúvidas quanto ao amor que tem pelo filho. Mas por que tantos pais vivem
guardando esse amor só para quando é tarde demais?
Onde estava o pai quando a filha (e mais
alguém) arrumaram um neto pra ele? Onde deveria estar esse pai? Por
certo não seria dentro do motel, mas muito antes da filha ir pra lá
com alguém o pai por certo esteve ausente em alguma cena, em alguma
passagem. Onde
estava o pai quando o filho resolveu experimentar um fuminho "daqueles"? Ou quando resolveu tomar um
porre? Por certo não seria na rodinha de fumo, nem na mesa de um bar. O
pai fez falta em algum momento antes. Ou sua presença foi
inoportuna em alguma hora, dando algum mau exemplo.
A hora certa de um pai se fazer presente chega muito
antes das desgraças.
É quando se pode moldar o caráter do filho (ou da filha),
é quando
ele ainda é um satélite dos pais. Como Deus diz, pela
pena de Salomão:
ensina a criança (enquanto é criança) no caminho
em que deve andar,
e quando crescer (no gradativo processo de deixar de ser criança) jamais se desviará
dele. Curioso é que Salomão deve ter aprendido essa lição mais
pelo sofrimento do que pelo acerto. É certo que ele teve muitos e muitos
filhos, e embora não saibamos muito de seu desempenho como pai, podemos antever
que não deve ter sido grande coisa, pelo relato do comportamento de seu
filho Roboão, seu filho e sucessor no trono.
E quando meu filho precisa de mim?
A primeira conclusão a que chego é:
nem sempre meu filho precisa de mim quando ele pede minha presença
ou me valoriza.
Como assim?
Durante o curto tempo em que você é o
herói do seu filho (ah, bons tempos... adolescência é
dose...), seu filho pode até gostar de dizer que o pai é um empresário de
sucesso, que tem um carro assim ou assado. Mas isso dura pouco. É
tão passageiro quanto os tênis que ele usa nos pés - novos hoje,
amanhã estraçalhados. É óbvio que tudo isso
dá
segurança, esteio, mas o que fica mesmo é quem você
é para ele, não o que você tem. Do mesmo jeito que
nós descontamos nossas frustrações comprando coisas para mostrar aos
vizinhos, eles podem estar se gabando das coisas que o pai tem e lhes
dá, como uma espécie de compensação pela falta de um
pai que também lhes supra o que dinheiro não compra.
Outra coisa é quando seu filho quer brincar
com você, jogar com você. Esta é uma das maiores armadilhas.
Quantas e quantas vezes eu fui, brinquei, joguei (o que é certo e
necessário). Mas a medida em que a minha língua alcançava o meu
pé (inevitavelmente muito antes de meu filho esboçar qualquer sinal de
cansaço), eu me dava por satisfeito com aquela "amostra". Encerrava a
sessão de lazer, cortava a conversa e dizia: "tenho que trabalhar". E se
houvesse muita insistência, ai dele...
O que fica depois de terminada a cena? Qualquer
filho esquece o que o pai tinha e o que o pai fazia. Mas
lembra-se por toda a vida de como o pai fazia, de quem o pai era, de como ele
o tratava, de com que cara ele fazia as coisas. Igualzinho a
você, lembra?
Quando seu filho pede sua presença ele quer
brincar, é óbvio, como qualquer criança. Mas o que ele vai
guardar não é o resultado da brincadeira. Ele vai guardar pra sempre
quem você é. E o que você é faz a cabeça dele. E como.
E isso me leva a segunda conclusão: meu filho
jamais vai me pedir muitas
das coisas que ele realmente precisa.
Eu me explico.
Alguma vez um filho pediu limites a seu pai? Olha,
pai, estou saindo com
a galera... a que horas tenho que voltar? Ou então sua filha: olha pai, tem um carinha que quer namorar
comigo. Que você acha? Você jamais vai ouvir algo assim. Mas vai ter
que agir sempre.
Esqueça de esperar pela iniciativa de seu
filho em lhe perguntar certas coisas, ou lhe pedir ajuda em
outras. Por duas razões muito fortes:
- ele não tem a
mínima idéia do que precisa. Ainda não temexperiência acumulada. E vai acabar
decidindo na hora. Bater na bolado jeito que ela chega;
- pais e mães
são de outro planeta quando ele passa de uma certa idade. "Como é que meu pai pode
gostar daquelas músicas, cara, fala sério!" (ou traduzindo na
língua dos chats e bloggers deles: "Cum é q mo pa po gosta daklas muzk... kra... fla
seryu!"). Os pais falam e escrevem em português, já os
amigos o fazem no idioma dele (ultimamente isso tem tomado
dimensões maiores). Muito mais fácil deles se falarem.
Enfim, seu filho não pede, mas precisa.
Não quer, mas precisa. Vai espernear, mas precisa. Ele precisa de
limites, de um pai que diga sim e diga não. De um pai que o
encaminhe no trilho que ele nem sequer sabe para que serve. De um pai que se meta
na vida deles na medida do necessário, nem mais, nem menos.
E você e eu, pais que não sabem nem
como, nem quando? Nós precisamos do pai eterno, o pai da luzes. Precisamos
aprender de Deus o caminho a ensinar ao filho, para que ele jamais se
desvie dele.
Uma coisa é certa. De uma hora para outra
nossos filhos começam, querem e precisam tomar decisões
sozinhos. Nessas horas, melhor que saibam qual o caminho que devem seguir. Se
for o caminho certo, Deus diz que jamais se desviarão dele.
Se for o errado... danou-se. E você, definitivamente, não estará
na cena.
E tem aquela piada que fala que Deus, após
ter expulsado Adão e Eva do paraíso, disse a algum anjo que
fazia cara de "e agora, chefe?": "Calma, eles terão filhos!"
Texto biblico utilizado:
Proverbios 22:6
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